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domingo, 10 de julho de 2011

Subsídios para a história do Sítio "Soledade" (parte III)

As  abordagens  históricas  sobre o  notável  sítio  "Soledade"  conduzem, invariavelmente, a  um entrelaçamento  sentimental  e  genealógico  com  as  honradas  famílias  pioneiras  daquele  rincão  -   BRUACA  e  TARGINO. Composta por homens e mulheres que   perpetuam  no bom sangue  a  alma  sertaneja, sacudida  por  uma  impulsividade  ancestral   irrefreável, que as  asperezas  das  caatingas da  Chapada  ainda  mais  caldearam.

Penso  sempre  comovido, na  chegada  desses  primeiros  BRUACAS  e  TARGINOS, com  suas  mulheres e seus filhos, tangendo algumas  cabeças  de  gado  pé-duro  e  outras tantas   cabeças  de  miunças (Bodes e ovelhas), sementes  dos  rebanhos  futuros que tanto  contribuíram  para  a  fixação  definitiva.  Vindos  das  lonjuras  do  Limoeiro  do  Norte  e  de  Aracoiaba, no  Ceará, traziam  consigo a  verdade  dos  fortes, a  fé  dos  impassíveis, serena,firme, orgulhosa. Homens  e  mulheres  muito  parecidos com  os  soldados  do  tempo. Chegaram  à  desabitada  "Soledade"  em  uma  bela  e  estranha  noite, em  que  a  lua  banhava  de  luz  o  "Geral  das  Macambiras". Noite  feita  de  intenso  silêncio, "quebrado"  apenas  pelas  lufadas  de  ar  que  enxugavam  os  rostos  suados e  visivelmente cansados. Foram  noites  e  dias  varando  o  ermo  da  inóspita  Chapada, com  paradas  impostas  pelo  cansaço  e  pela  fome, amenizados  pelos "arranchos"  sob  frondosas  aroeiras, onde  arriavam  os  apetrechos  e  as  bruacas. Nestas, enfiavam  suas  mãos  para  catarem o  farnel, composto por  pedaços de  carne  seca, também conhecida como  carne de charque, conservada  imersa em farinha  caroçuda, onde também  se  encontrava  a  indispensável  rapadura  preta, sobremesa  sertaneja  que  revigora  como  adoçante  no  café  torrado  e moído  antes da  viagem.  As  rústicas  cabaças  conduziam  a  água, precioso  líquido  deveras  difícil  de se encontrar na  imensidão  das  matas. Presos  à   cintura, traziam  suas  famosas  facas  "lambedeiras", seus  facões  "rabos-de-galo"  e  suas  espingardas  conhecidas  como  "lazarinas"  ou  "bate-buchas".  Caminhavam  mascando  fumo ou  consumindo  grossos  cigarros,  conhecidos  como  cigarros  de  palha  ou  brejeiros, posto que  feitos  com  fumo  de  rolo  vindo  do  brejo  paraibano.  Sob  sol  causticante, suavam  em  bicas, como se  estivessem a  pagarem  penitência  na  busca  incontida  de  terras  onde  pudessem  tomar  posse  e  delas  retirarem  o  sustento  de  suas  proles. Particularidades  de  fatos  que  nos  dão  idéia  da  saga  heróica  e  grandiosa.

Unidos  pelo  mesmo  destino  e  objetivos, passaram  a  praticar  a  endogamia  -  costume  à  época  de  só  casarem  com  parentes, para  manterem  os  bens  patrimoniais  sempre  em  família.  Primos  com  primas, tios  casando  com  sobrinhas, dois rapazes  casando  com  duas  primas  e  irmãs  entre  si.  Ao chegarem  à   "Soledade", traziam  consigo  a  certeza  de  que  experimentariam  a  empolgância   de  uma  perspectiva  toda  nova, absolutamente  desconhecida. De  certeza  mesmo,  só  a  de que  contariam  com  o  inestimável  e  importante  apoio do  Coronel  Antonio  Ferreira  Pinto, que os  convidara  por  ocasião  de  suas andanças  em  terras  cearenses.  O  estreito  vínculo  de  amizade  entre  a  família  PINTO  e  os BRUACAS  e  TARGINOS  logo  se consolidaria  pela  compadrio  e  vizinhança  de  suas  terras  -   duas  colunas  soberanas  e  centenárias. Relações  de  consideração  recíprocas  e  prestantes  no  solo  e  nas  almas  constituíam  os  canais  competentes do  solidarismo  agrário, explicando  os  trabalhos  gratuitos  das  ajudas  -  o famoso  "adjunto", que  era  o  costume  sertanejo  dos  vizinhos  marcarem  dia  para  serem  realizados  serviços  agrícolas  como  construção  de  cercas, destocamento, plantio   e  colheita de   gêneros  de  subsistência  alimentar,  como  feijão  e  milho, bem como  na  apanha  do  algodão. Para  a  mantença  alimentar  dos  que  compunham  os  adjuntos, abatiam-se  porcos  e  bodes, que  os  alimentavam  à  contento  e  à  gosto.

Em pesquisas  realizadas  nas   edições   fac-similares  do  jornal  "O  Mossoroense", do  ano de  1872, encontrei  referência  a   uma  pessoa  que  tinha  o  apelido  de  BRUACA  residindo  na  Chapada  do  Apodi.  À  luz  de  um  assento  de  óbito  contido  no  livro  de  óbitos  número  02,do Primeiro Cartório Judiciário de  Apodi,  encontrei, à  fls. 43, o  assento  de  óbito de  SIMÃO NOGUEIRA  DA  SILVA, conhecido  como  Simão  Bruaca, natural  de  Limoeiro  do  Norte-CE, filho  legítimo  de  Francisco  Nogueira  da Silva  e  de  Maria  Nogueira  Maia, também  naturais de  Limoeiro  do  Norte.  Casou  em  Apodi  com  MARIA FRANCISCA  DA  COSTA,da  família  Targino, com quem  teve  grande  prole.  SIMÃO  faleceu  no  "Olho  D'água  da  Soledade"  a  10  de  Agosto  de  1890, aos  55  anos  de  idade.  Consegui  colher  os  nomes  de  dois  filhos  desse  venturoso  casal: FRANCISCA  MONTEIRO  DA  COSTA  SOBRINHA, casada  com Manoel  da  Costa  Soares, tendo  Francisca  falecido  no  sítio  "Soledade"  a  09 de  Agosto  de  1906, aos  38 anos  de  idade, deixando  os  filhos  FRANCISCA, com  19  anos  de  idade, e JOANA  com  16  anos  de  idade.  O  segundo filho de  Simão  Bruaca  tinha  o  nome  civil  MANOEL  NOGUEIRA  DA  SILVA, conhecido  com  Manoel  Bruaca, que  veio  a casar  com  ANTONIA  SEVERIANA  DE  FREITAS.  Manoel  faleceu em  consequência de  um  raio  atmosférico  no  sítio  "Boca da Mata", quando se encontravam  caçando, no  dia  24  de  Abril  de  1928, aos  44 anos de  idade, deixando  a  viúva  e  os  filhos FRANCISCO, ANTONIO, MARIA, ADRIÃO, ANTONIA, PEDRO, PLÁCIDO, JOSÉ, SEBASTIÃO, MARIA JÚLIA, PAULO  e  LUIZ. (FONTE: Livro de óbitos, Fls. 128 -  do Primeiro Cartório Judiciário  de  Apodi).

O  velho  ZÉ  MENDONÇA, morador  do  sítio  Pé-de-Serra, criou  um  dos  BRUACAS  conhecido  como  Chico  Mendonça, que  era  irmão  de  Zé Bruaca, Luís  e  JOÃO  BRUACA, que  afirmam  os  mais  velhos  da  família ter  sido  um dos bravos matadores  de  onças, as  quais  acuava  nas  grutas  do  lajedo.  Todos  os  BRUACAS  mais  velhos  foram  exímios  caçadores  de  onças. À  noite, acompanhados de seus  cães  de  caça, tomavam  o  rastro  da  onça  que  havia  se enfurnado. Entravam  de furna  adentro, precedidos de seus  cães  de  confiança. As  onças  sempre  ficavam  acuadas  sobre  um  batente  de  pedra, deitada, espreitando  o valente  caçador, conservando  a  falsa  atitude  de  indiferença  ante  a  presença  dos  cães  e de seus  donos. No lusco-fusco  do  "Murrão", os  Bruacas percebiam  que  a  onça  se  aprontava  para  saltar, e  rápido  um deles  erguia  a  vara  com  a  zagaia, tendo  de  aguentar  o  peso  da  onça  na  ponta  da  zagaia.  Esturrando  e  de  peito  atravessado, ela  tentava  alcançar  o  Bruaca  com  suas  garras. O  cachorro  aproveitava  da  situação  e  ficava  a  morder  as  patas  traseiras  do  animal.  Pouco a  pouco  a  onça  perdia  a força  e  caía  morta.  A  ZAGÁIA  é  uma  lança   usada  para  "escorar"  a  onça  quando  ataca  o  caçador. Tem de  uma   a três  pontas  e  é  encasteada  em  madeira  resistente.  MURRÃO  é   uma  lamparina  grande, tendo como  depósito de  querosena  uma  garrafa  de  barro  vidrado, vidro  ou  mesmo  flandre  -  onde  acendem  um pavio grosso  que  não  possa  ser  apagado  pelo  vento. Alguns  chamam-na  de  PIRACA.  Quanto  ao  apelido  BRUACA, deve-se  ao fato de  que  estes  NOGUEIRAS  sempre  se  deslocavam  para  suas  caçadas  e  outras  andanças  sempre  portando  pequenos  sacos de  couro  comumente  pendurados  um de  cada  lado da sela (selim), ou  apenas  uma  pendurada  ao  ombro.  Era  também,  comum  "ver-se"  os  BRUACAS  calçando  "Apragatas  de  corrêia  na  venta", que  são  pedações  de  couro, de  uma  dimensão  pouco  maior  do  que  as  da  sola  dos  pés  da  pessoa  que  as  usa. Duas  correias  prendem  a  frente. Outras  passam  pela  parte  anterior, segurando  como  anel  de  couro, ao  jarrete, vindo  estas pelos dedos  do  pé. Conheci  um  dos  homens  valentes  dos BRUACAS, conhecido  como  TIBÚRCIO  GOELA, filho  natural de  Senhorinha, exímia tocadora  de  fole, componente  da  família  dos  Bruacas.  No  ano de  1940, o  Tibúrcio   foi  incumbido  pelo  Coronel  Lucas  Pinto, para  resgatar  um  burro  raceado  que  fora  roubado  do  seu  irmão  João  de  Dodô (Pai de Dalva  de  Adailton  Torres)  do  qual  tivera  notícias  se  encontrava   compondo  um  comboio  de  um  conhecido  valentão  morador  no  Acarape-CE, atual  cidade  de  nome  Redenção. Sem  mais delongas, o  Tibúrcio  cumpriu  o  compromisso.

Marcos Pinto – Historiador e Presidente da Academia Apodiense de Letras.

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