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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

CANGAÇO NO RIO GRANDE DO NORTE - A HISTÓRIA QUE NÃO FOI CONTADA (II).

        Quando   um  dia  se  fizer  um acurado  levantamento  de  fatos  considerados  históricos, atinentes  à  investida  de  Lampião    e  seu  bando  ao  Rio  Grande  do  Norte, restará  provado  e  comprovado  que  muitas  pessoas  que  viveram   a  contemporaneidade  desses  fatos, incorreram  em  voluntariosa  omissão, negando-se  a  darem  seus  depoimentos  a  pesquisadores/historiadores, cujos  depoimentos  seriam   de  suma  importância  para  o  cotejo  das  provas.  Esquivaram-se   sob  a  pusilânime  assertiva  de  que  omitiam-se  "por  medida  de  cautela, ocultando  evidências  que, segundo suas  pérfidas  óticas, seria  natural  em  quem  revolve  acontecimentos  de  ontem,  com  perspectivas  hodiernas  de  trazer   à  tona  fatos  adrede  combinados   para   serem  "guardados  à   sete  chaves", como  se  diz  no  sertão.
         A  partir  do  ano  de  1915   foi  instalado  o  clima  de  terror  no  município  de  Apodi,  quando  aportaram  em  Apodi  os  truculentos   Srs.  Martiniano  de  Queiroz  Porto, oriundo  da  serra  do  Pereiro, no  Ceará,  e  Juvêncio  Augusto  Barrêto, ambos  trazendo  seus  jagunços, geralmente  composto  por   celerados  fugitivos  da  Justiça.  Martiniano   fixou  residência  na  cidade, onde  comprou  um  prédio  residencial  assobradado, onde  escondia  seus  capangas.  Juvêncio  oriundo  da  cidade  de  Martins,  onde  renunciara  ao  cargo  de  Vereador, tendo  se  instalado  em  uma   fazenda  que  comprara e que  era  denominada  de  "Unha de  Gato",  onde  transformou  em  coito  para  vários  cangaceiros,  destacando-se  Massilon  Leite  e  Júlio  Porto,  então  adolescente  criado  por  Martiniano  Porto.  O  nome  civil  de  Júlio  era  Júlio  Santana  de Melo, tendo  adotado  o  sobrenome  Porto  em  homenagem  à  Martiniano  Queiroz  Porto.  A  vinda  desses  dois  virulentos  senhores  para  o  Apodi  deu-se  em  atendimento  ao  convite  feito  por  Felipe  Guerra  e  seu  cunhado  Tilon  Gurgel, para  cerrarem  acirrada  oposição  política  ao  Coronel  João  Jázimo  Pinto.
TILON GURGEL
        Um fato  que  corrobora  o  gênio  irascível   e  virulento   do  Sr. Felipe  Guerra  atrela-se  à  minudência  de  que,  em  toda  sua  trajetória  de  Juiz  de  Direito  e  de  Desembargador  passou  mais  tempo  em  disponibilidade  do  que  mesmo  no  exercício  da  função  judicante.   Formou-se  uma  trinca sinistra  no  judiciário  estadual, com  atuação  na região  Oeste  do   estado,  composta  pelos  truculentos  Juízes   de  Direito  Horácio  Barrêto,(Sobrinho de  Juvêncio  Barreto)  que  ocupou  a  comarca  de  Pau  dos  Ferros, no  período  1901-1915, onde  casou  com  uma  moça  da  família  Diógenes, Felipe  Guerra,
José  Fernandes  Vieira (genro de  Martiniano  Porto) e  João  Francisco  Dantas  Sales.  Os  ânimos  desse  conluio  de  Magistrados  foram  acirrados  com  a  investidura  de  Ferreira  Chaves  no  governo  estadual  para  o  período  1914-1919, sendo  certo  que  em  1919  Ferreira  Chaves  promoveu  para  Desembargadores  os  magistrados  Horácio  Barreto, sobrinho de  sua  esposa  Alexandrina  Barreto, e  Felipe  Guerra, que  por  sua  vez  convidou  o  seu  amigo  íntimo  o  Juiz  de  Direito  João  Francisco  Dantas  Sales  para  ocupar  a  Comarca  do  Apodi,  consumando  um  plano  adrede  traçado  para  que  este  Juiz   perseguisse  a  harmoniosa  e  pacífica  hoste  política  da  tradicional  família  PINTO, comandada  pelos  Coronéis  João  Jázimo  Pinto  e  seu  genro  Coronel   Francisco  Pinto.  Felipe  Guerra  era  casado  com  uma  irmã do  não  menos  truculento  Tilon  Gurgel.  
FELIPE GUERRA
          O  período  da  titularidade   do  Juiz  João  Francisco  Dantas  Sales (1922-1925)  transformou  a região  do  Apodi  em palco  de  toda  sorte  de  atentados  à  integridade  física  e  à  propriedade  privada.  Esse  magistrado   transformou  sua residência  em  coito  para  os  celerados  Benedito  Saldanha e seu  irmão  Quinca  Saldanha,  famosos  chefe  de  grupo de  cangaceiros   instalados  em  Caraúbas,  em  sua  fazenda  denominada  de  "Setúbal".  O  douto  Juiz  chegou  ao   disparate  de  acoitar   em  sua  residência  a  um  arruaceiro  de  nome  Manoel  Elias  de Lima, que  acabara  de  praticar  uma  tentativa  de  homicídio  dentro  do  mercado  público  de  Apodi, quando  alvejara  com   um  tiro  de revólver  o  cidadão  Vicente  Gomes  de  Oliveira.   Observava-se  às  escâncaras  o  conúbio  criminoso-protetivo  existente   entre  o  Juiz  João  Dantas  Sales  e  os  Chefes  de  cangaceiros  Décio  Holanda/Tilon  Gurgel,  Martiniano  Porto/Juvêncio  Barrêto,  Benedito  Saldanha/Quinca  Saldanha.
         Há  um  fato  emblemático  contido  no   Processo-Crime   de  Nº  486/1925,(Comarca de  Apodi)  em  que  aparece  como  indiciado  o  celerado  Décio  Holanda , cujo  nome  civil  era  Décio  Sebastião  de  Albuquerque, e que   representa  um  liame  com  o  ataque  de  Lampião  e  seu  grupo  à  Mossoró.  Trata-se  do  depoimento  do  respeitável  cidadão  Vicente  Gomes  de  Oliveira, prestado  a  03.05.1925,  que  dentre  outras  arguições,  afirmou:  " Que  é  público  e  notório   nesta  cidade  do  Apodi,  que  Décio  Sebastião  de  Albuquerque  comprou   em  Mossoró  dois mil  cartuchos  com balas  para  rifle  e  que   estão  depositadas  em  sua  propriedade  "Pedra  das  Abelhas"  neste  município.  Na  época  correram  rumores  que  a  compra  do  arsenal  bélico  feita  pelo  Décio  fora  intermediado  por  Felipe Guerra  e  Jerônimo  Rosado.  Que  Décio  tem  em  sua  casa  de   residência, na  residência  de  seu  sogro  Tilon  Gurgel  e  na  casa  de  Belarmino  de  Tal, tudo  na  mesma  propriedade "Pedra  das  Abelhas"  e  em  sua  outra  propriedade  denominada  "Pacó" grande quantidade  de  armamentos e  mais   munições  para  o  fim  de  atacar  com  cangaceiros  os  habitantes  desta  cidade  amigos  políticos  do  Coronel  João  Jázimo, ao  própiro  Cel.  João  Jázimo, atacando  simultaneamente  a  força  pública  mandada  pelo  governador  do  estado  para  manter  a  ordem  nesta  cidade".
CANGACEIROS FAZEM POSE PARA FOTOGRAFIA
       Como  o  Juiz  João  Dantas  Sales  soube  no  mesmo  dia  03  de  Maio  que  o  então  Delegado  Especial  Capitão  Jacinto  Tavares  Ferreira  ouvira  em  depoimento  o  Sr. Vicente  Gomes  de  Oliveira, e que  nesse  mesmo  dia  o dito Delegado  mandara  lavrar  Auto  de  Busca  e  Apreensão  a  ser  cumprida  por  um  efetivo  policial  composto  por  40  praças  e  um  Sargento  no  dia  seguinte , enviou  mensageiro  especial  para  a  fazenda  "Pedra  das  Abelhas"  avisar  aos  bandoleiros  Décio  Holanda  e  Tilon  Gurgel, que  neste mesmo  dia  enviaram  o  arsenal  em  comboio  animal  para  a  fazenda  dos  celerados  Benedito  e  Quinca  Saldanha, em  Caraúbas.  O  certo  é  que, efetivamente  a  04  de  Maio  de  1925  a  tropa  policial  dirigiu-se  para  "Pedra  das  Abelhas", onde  no  lugar  conhecido  como  "Saco  do  barro"  houve  o  confronto  entre  a  jagunçada  de  Décio  Holanda/Tilon  Gurgel, evento  que   inserí  nos  anais  históricos  como  tendo  sido  O  FOGO DE  PEDRA  DE  ABELHAS, cujo  relato  foi  objeto  de  artigo  publicado  em  plaquete,  pela  Coleção  Mossoroense,  e  no  Blog  "Honoriodemedeiros.blogspot.com".
        A   fidagal  amizade  existente  entre  Felipe  Guerra  e  Jerônimo  Rosado  remonta  ainda  ao  ano  de  1907, quando  cerraram  fileiras   em  Mossoró  com  o  Coronel  Vicente  Sabóia  de  Albuquerque (parente  de  Décio)  na  luta  pela  implantação  do ramal  ferroviário  Porto  Franco -  Mossoró.  Em Setembro  de  1926  o  então  Desembargador  Felipe  Guerra  foi  posto  em  disponibilidade, quando  então  retornou  à  Mossoró  para  assessorar  o  amigo  Jerônimo  Rosado. Nasceu  aí  o  complô  para  a  vinda  de  Lampião  à  Mossoró,  com  o  fito  único  de  eliminar  o  Prefeito  Rodolfo  Fernandes  e  proporcionar  a  volta  do  Jerônimo  Rosado  ao  poder  municipal.   Jerônimo  Rosado  havia  sido  Presidente  da  Intendência  Municipal  de  Mossoró (cargo  que  em  Agosto de  1926   passou  a  ser  denominado  de  
Prefeito) , tendo  como  Vice-Presidente (Vice-Prefeito)  o  Dr.  Antonio  Soares  Júnior, médico  e  genro  de  Felipe  Guerra.
          Lembro-me  que  o  meu  avô  paterno  Aristides  Ferreira  Pinto,(1907-1975) que  era  irmão  legítimo  do  Coronel  Francisco  Pinto,(1895-1934) contou-me  pormenores  da  carta  enviada  pelo  irmão  ao  seu  parente  Rodolfo  Fernandes, informando, dentre  outros  detalhes,  que  soubera  por  fonte  fidedigna, de  que  o  arsenal  comprado  por  Décio  Holanda  em  Mossoró  no  ano  de  1925, fora  transferido  em comboio  animal  noturno, da  fazenda  dos  Saldanha  em  Caraúbas, para  a  fazenda  "Bálsamo", de  Décio  Holanda,  encravada  na  serra  do  Pereiro,  no  Ceará.  Nos  depoimentos  dados  em  Pau  dos  Ferros  pelos  cangaceiros  MORMAÇO  E  BRONZEADO  foram  unânimes  em  afirmarem  que  Lampião  passou  mais  de um  mês  acoitado  com  o  seu  bando  entre  as fazendas  de  Décio  Holanda  e  seu  primo  Zé Cardoso, preparando-se  para  o  ataque  à  Mossoró, e  que Lampião  recebera  de  Décio  e  Zé  Cardoso  dois  mil  cartuchos  com  balas  para  rifle.
          Em  uma  das edições  do Jornal  mossoroense  "Correio  do  Povo"  consta  um  comunicado  de  que  o  chefe de  cangaceiros  Benedito  Saldanha, dias  depois  do  ataque  de  Lampião  à  Mossoró, telegrafara  ao  então  Chefe  de  Polícia  do  estadual  Dr. Benício  Filho (Manuel  Benício  de  Melo  Filho)  informando  que  o cangaceiro  Coqueiro, que  fora  um  dos cangaceiros  que  atacara  Mossoró,   fora  morto  em  sua fazenda  "Várzea  Grande", proximidades  da 
cidade  de  Limoeiro  do  Norte, em confronto  com  a  policia  cearense.  Soube-se  depois  que  o  mesmo  fora  morto  por  cangaceiros  de  Benedito  Saldanha,  cumprindo  o  costumeiro  processo  de  "Queima de  Arquivo".   
         Para  maiores  esclarecimentos  acerca  do  ataque  lampionesco  à  Mossoró, sugiro  a  leitura  do  Blog  "honoriodemedeiros.blogspot.com   (No  ítem  CORONELISMO)  e  adquirir  por  compra  o  memorável  e  elucidativo  livro  "MASSILON"  , de  autoria  do  profícuo  e  renomado  historiador  do cangaço  Honório  Medeiros.

                              (Por  Marcos   Pinto).

CANGAÇO NO RIO GRANDE DO NORTE - A HISTÓRIA QUE NÃO FOI CONTADA (I).

 Em  um  dos  inúmeros  Seminários  promovidos  para  debater  a  história  do  cangaço, com  ênfase  para  seus  protagonistas,  ouvi ,  de renomados  estudiosos  desse  truculento  capítulo  da  historiografia  nordestina, que  ainda  há  muitos  episódios  e facetas  envoltos  em  abissal  mistério. Constata-se, à  exaustão, voluntariosas  e  inconsistentes  omissões  quanto  à  divulgação  em  livros  ou  em artigos  esparsos.  As  narrativas  equilibram-se   de  acordo  com  as
circunstâncias  e  tendências  em  conflito.  São  raros  os  historiadores/pesquisadores  que  evidenciam e deixam    uma lição  de  coragem  e  exemplo  de  independência, gestos  ratos  numa   época  de  subserviências  e  fraquezas  éticas. Foram/são  homens  de  diretrizes  certas  e  vontades  próprias, sob  a  tutela  das  quais  neutralizam os  velhos  vícios 
do  mandonismo  e  do  arbítrio.   Custeiam, com  recursos  próprios, as  suas  publicações  em  livros  e  opúsculos, para não  fazer  como tantos  que  se  atêm   com   deturpação  dos  fatos  e  distorção  da  história.  Já  é  perceptível  o  surgimento  de  um  segmento  entre  os  pesquisadores  sobre  o  cangaço, que  exorcizam  fatos  históricos  entregues ao  olvido.  À   esses, rendo  o  meu  preito  de  admiração  e  respeito,  inexpugnáveis.
       Os  capítulos  lacunosos  correm  num   estuário  de  espanto   e  de  mistérios.  Transbordam  pelas  barreiras    do  passado, para  espraiarem  na  planície  da  concretude  histórica.   No  desiderato  da  pesquisa  histórica, é  imprescindível  que  se   mantenha  uma  imparcialidade  quase   sobre-humana,  na  apreciação  dos  fatos  e  dos  homens.   Escoimando-se   os  fatos   deliberadamente   circunscritos  ao  olvido  e  a  um  silêncio  sepulcral.  Ainda  visualiza-se  a  predominância de  uma  perspectiva  de certo  modo  sombria  e preocupante  para  algumas  famílias  que  tiveram  alguns  dos   seus  membros  em  ativa  participação  no  processo  de  articulação  para  a  vinda de  Lampião  e  seu  bando  às  plagas  citadinas  da  região  Oeste  potiguar.  É  certo,  que  as  nuances  dos  ataques  banditícios   à  cidade  de  Apodi (10.05.1927)  e  à  Mossoró (13.06.1927)  reúnem  perspectivas  históricas  inéditas,  factuais  e  cronológicas, exaltadoras  de  minudências  que  configuram-se  em  instigante  libelo-crime  acusatório.  Isso, sem falar  em  provas  documentais  envolventes,  que  foram  deliberadamente  incinerados,  ou  perdidos  na  voragem  do  tempo.
CANGACEIROS DO BANDO DE ISAÍAS ARRUDA
      Observa-se,  em  pormenores, que  a  partir  do  ano  de  1919, final  do   incipiente  governo  de  Ferreira  Chaves (1914-1919)  instalou-se  um  clima  propício   à  criação  e  instalação  de   grupos  de  cangaceiros  na  região  Oeste  potiguar, processo  de  terror  que  contou  com  veemente  proteção  e  acumpliciamento de  algumas  figuras  carimbadas  do  judiciário  estadual.  Em  1919  o  então  governador  nomeou  Desembargador  os  Juízes de  Direito  Felipe  Guerra  e  Horácio  Barreto, este   sobrinho  de  dona  Alexandrina  Barreto, esposa  do  governador  Ferreira  Chaves.  Nesse  ano  instalou-se  no  então  sítio  BREJO  DO  APODI  o  grupo  de  cangaceiros  oriundos  da  serra  do  Pereiro, capitaneados  pelo  truculento  DÉCIO  SEBASTIÃO DE  ALBUQUERQUE, conhecido  popularmente  como  DÉCIO  HOLANDA, que  era  genro  do  não  menos  truculento  TILON  GURGEL.  Essa   Milícia  particular  passou  a  ter  integral   e  ostensivo  apoio  do  Desembargador  Felipe  Guerra,  que  era  casado  com  uma  irmã  de  Tilon  Gurgel.  Portanto, a  esposa  do  bandoleiro Décio Holanda (Chicuta) era  sobrinha  paterna  da  esposa  de  Felipe  Guerra.   No  ano  de  1915  aportaram  em  Apodi, para  fixarem   residência  e  à  convite  de  Tilon  Gurgel  e  Felipe  Guerra, os  virulentos  Juvêncio  Augusto  Barrêto, irmão da  esposa  do  governador  Ferreira  Chaves (D. Alexandrina  Barreto  Chaves)  e  Martiniano  de  Queiroz  Porto, com  fito  único  de  fazerem  acirrada  oposição  política  ao  Coronel  João  Jázimo  Pinto.   Juvêncio  Barreto  instalou-se  em  sua fazenda  "Unha de  Gato", onde   acoitou   jagunços  oriundos  do  Ceará, que  por  sua  vez  aliaram-se  ao  grupo  de  bandoleiros  comandados  por  Martiniano  de  Queiroz  Porto, oriundos  da  serra  do  Pereiro, no  Ceará.  Como  espécies  de  vasos  comunicantes,  esses  grupos  de  bandoleiros  aliam-se  ao   ignominioso  bando  de  cangaceiros  comandados  pelos  celerados  Benedito  Saldanha  e  seu  irmão  Quinca  Saldanha.  Surge  daí  o  consórcio  para   o  mal, composto  pelo  Juiz  de  Direito  José  Fernandes  Vieira, sogro de  Martiniano  Porto,  Desembargadores  Horácio  Barreto  e  Felipe  Guerra, com fito  único  de  acobertar  os  crimes  perpetrados  respectivamente  por  Juvêncio  Barreto (Tio  de  Horácio  Barreto)  Décio  Holanda  e  Tilon   Gurgel.
          No  contexto  do cangaceirismo,  destacaram-se  as  asquerosas  figuras  de  Júlio  Santana  de  Melo, que  por  ter  a  proteção  do  seu  mentor  Martiniano  Porto, com quem veio  para  o  Apodi,  passou  a ser  conhecido como  sendo  JÚLIO  PORTO, que  viria  a  constituir  amizade  com  o  bandido  Massilon  Benevides,  e  que  mais tarde  compuseram  o  nefando  bando de  Lampião, nos  célebres  ataques  às  cidade de  Apodi (10.05.1927)  e  Mossoró (13.06.1927). 
          Com  a junção  desses   04  grupos  de  jagunços/bandoleiros, capitaneados  respectivamente  por  Juvêncio  Barreto, Martiniano   Queiroz  Porto, Décio  Holanda/Tilon  Gurgel, e  Benedito  Saldanha  e  Quinca  Saldanha  instalou-se  um  cenário de  horror  e    provocações   ao   povo  de  Apodi.   Delineou-se, assim, um   truculento  cenário  banditício.  Esses  redutos de grupos  de  jagunços  colocou  os  seus  comandantes  em tal   situação  de  poderio, que   faziam  de  suas  prepotentes  vontades  a  LEI  DOS SERTÕES, e   que  para  exercê-la  não  hesitavam  em  cometerem  atos  violentos,  arbitrários  e  reprováveis.  Esses  grupos  viviam   a  depredar  e  perseguirem  a  população  apodiense, prontos  ao serviço, submissos  às  determinações  dos  despóticos  patronos.
          Em  1922  o ardiloso  Desembargador  FELIPE  GUERRA  traficou  influência    e indicou  o   seu  amigo  particular  JOÃO  DANTAS  SALES  para  assumir   como  Juiz  de  Direito  a   Comarca  de  Apodi,  tendo  como  objetivo  proteger  e  tutelar  os  desmandos e
atos  de   infração  à  lei  e  ataques  à  vida  e  a   propriedade.  Benedito  e  Quinca  Saldanha  eram  os  protetores  de  Massilon, que se  julgava  afilhado  de  Quinca  Saldanha.
MASSILON
           No   processo-crime  de  nº  486, instaurado  em   03.05.1925   consta  vários  depoimentos  de  respeitáveis cidadãos apodienses, dando  conta  de  que  o  então  Juiz   de  Direito  da   Comarca   João  Dantas  Sales  acolhia  e   hospedava, às  escâncaras,  em  sua  residência  em   Apodi, os  bandoleiros  Benedito  e  Quinca  Saldanha.  Era  a  trinca  sinistra  comandando   a
desordem  e  instalando   o  pânico.   A  pública  ligação  pessoal  e  política   do   Juiz  João  Dantas  Sales, que  ocupou  a  titularidade  da  comarca  de  Apodi  no   período  1922-1925,   com  Benedito  Saldanha/Quinca, Décio   Holanda/Tilon  Gurgel, Martiniano  Porto/Juvêncio  Barreto,  influenciou-o  para  alterar   a  exação  que  norteia  e  é  dever  do   Magistrado.   Adotou  ignóbil   proteção  e  parcialidade  quando  Benedito  Saldanha   foi  julgado  pelo  Tribunal  Popular  do  Júri  em  Apodi, por   ter  espancado   o  Sr.  Francisco  Noronha  e  uma  moça  de  nome  Maria  Lúcia,  filha   do  velho  Carneiro.   Contribuiu  para  a  absolvição  de  Décio  Holanda   quando   submetido  a  julgamento  no   Tribunal  Popular  do  Júri,  por  ter  atirado  e  ferido   gravemente  um  rapaz  de  nome  Tertulino   Canela.  O  cinismo  e  a  desfaçatez  de  Felipe  Guerra  estão   delineados  quando  afirmou   que  "No  RN  não  há  cangaceirismo",  em  seu  livro  intitulado  "AINDA  O   NORDESTE" -  Pág. 79 -  Tipografia  do  Jornal  "A  República"  -  Ano  1927.
                                                                (Por  Marcos  Pinto).

(OBS:  Continua  na  Parte  II).