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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

COLONIZAÇÃO E POVOAMENTO DO APODI (I) - O MARCO ZERO.

     Processo  histórico  lento  e  gradual  da  ocupação  do  adusto  solo  sertanejo, em  que  consubstancia-se  a  trajetória  de  bravura  e  pujança  da  honrada  família  NOGUEIRA, rasgando  os  sertões  da  Paraíba  para  penetrar  o  "Vale do Jaguaribe", por  onde  alcançaram  a   ignota  serra,  reduto  de  ferozes  indígenas, seguindo  suas  veredas  para, sob  a  tutela dos seus facões, alargarem-nas  e  transformarem-nas  em  picadas, fato  referencial  que  fez com  que  passassem  a  denominá-la  em  batismo  toponímico  de  "SERRA  DA PICADA".  No  silêncio  cheio  de  sol, ao  aproximarem-se  das terras  que  se  estiravam  das   bordas  da  serra  para  uma  piscosa  lagoa, tiveram desse  portal  uma  bela  visão  panorâmica, sedutora  e  misteriosa.  Do  alto da  serra,  o  céu  vestia-se  de  um  azul  intenso, e mais azul  do  que  ele, os  vultos  das  altaneiras  serras  do  Patu, Portalegre  e  Martins, perfilando-se em  aparados  ou  talhados.   Embriagados de  notáveis  emoções, divisaram  o  vasto  carnaubal  cobrindo  de  verde  as  férteis  terras  de  aluvião,que  embalavam  e  ainda  embalam  nas  tardes mornas  o farfalhar  dos seus leques  em  misteriosas  coreografias.  Batizariam  com  o  pomposo  referencial  toponímico  de  "Várzeas  do  Pody", denominação  esta  que,  no  ano  de  1761,  o  Juiz  Miguel  Carlos  de  Pina  Castelo  Branco  ampliara  para  "Povoação  das  Várzeas  do  Apody".  Nesse  cenário  extasiante  sobressaíam-se  as  contagiantes  "vazantes"  da lagoa, ampliando  o  encantamento  do  elemento  branco  povoador.  Aquí  e  alí  cortava  o  silêncio  o  canto  característico  das  seriemas,  em  seu  cacarejo  metálico.  

Nos  primeiros  e  temerosos  contatos  com a  indiada  tapuias  paiacus, em que  predominavam  as  recíprocas  desconfianças  e  precauções, os  Nogueira  devem  terem  visto  e  ouvido,  curiosos, os  silvícolas  apontarem  para  o  chão  e baterem fortemente  nos  peitos, a  afirmarem  em  sua  linguagem  travada, que  eram  senhores  absolutos  da  terra  PODY.  Amainados os ânimos da  indiada  da  nação  Tarairiús, os  NOGUEIRA  trataram  logo  de  requerem  as   primeiras  "Datas  de  Sesmarias", açambarcando, como lhes  era  de  direito, as  melhores  terras, englobando  toda  a  várzea  até  as  que  margeavam  a  lagoa, estendendo-se  até  o  sopé  da  serra  que  eles  passaram  a  denominar,  em  seus  requerimentos de  sesmarias, de  "SERRA  PODY  DOS  ENCANTOS".  Quando  as  terras  requeridas  eram  distantes, já  vizinhas  ao  Ceará, afirmavam  que  as  terras  eram  situadas  na  "SERRA  PODY  DOS  ENCANTOS  PARA  FORA".  Apos  todos  os  ingentes  esforços  empreendidos  na  conquista  das  terras, os  bravos  NOGUEIRA  depararam-se  com  a  insana  concorrência  dos  sesmeiros  baianos  da  família  ROCHA  PITA, que  pleiteavam  forçosamente  o  senhorio  das  terras  requeridas  pelos  NOGUEIRA, situadas  na  margem  sul  da  lagoa, onde  hoje  situa-se  o  sítio  "Garapa", e outros vizinhos, medindo  três  léguas  de  comprimento  por  uma  de  largura.  Não  havia  como  os  NOGUEIRA  perderem  suas  concessões  sesmeiras, posto  que requereram  em  início  do  mês  de  Maio  de  1680, e  no  dia  19  do  mesmo  mês  e  ano  eram-lhes  concedidas  pelo  então  Capitão-Mór  do  RN.  Os  ROCHA  PITA  requereram  somente  em  Junho  de  1680.

 Na  epopéia  colonizadora, os  indômitos  NOGUEIRA  protagonizaram  incontáveis  fatos  históricos, num  processo  evolutivo  e  audacioso, escrevendo  o  capítulo  especial  do  povoador  inicial,   empregando  a  pólvora  e  o  aço  viril, contra  o arco  e  a  flecha, tão  bem  manejadas  pelas  hábeis  mãos  da  indiada, até  então  com  o  senhorio  absoluto  das  plagas  de  terras  ardentes.

Como  os  tapuias  paiacus  tinham  sua  taba  principal  situada  nas  terras  onde  hoje  estão  encravados  os  sítios "Barra", "Ponta", "Largo"  e  "Estreito", a  família  NOGUEIRA  optou  por  fixarem  moradia  no  outro  lado  da  lagoa, no  lugar  onde  atualmente  está  encravado  o  sítio  "Garapa", que  os  NOGUEIRA  batizaram  inicialmente  com  o  nome  de  "Braço da lagoa  do  Cajueiro".   Baseado  nesta  minudência  histórica  e  geográfica,  poder-se-á  afirmar  que  este  lugar  assume  a  emblemática  conotação  geográfica  de  ter  sido " O  MARCO  ZERO  DA  COLONIZAÇÃO  E  POVOAMENTO  DO  APODI".

 Estranha-se  o  fato de  que  os  NOGUEIRA  não  tenham  contado  com  a  ajuda  espiritual  de  um  sacerdote  para  ajudá-los  no  difícil  momento  do  encontro  primeiro  com  a  indiada.

Quanto  ao  venerando  capítulo  da  CATEQUESE  INDÍGENA  em terras  Apodienses, há  um  longo  hiato  de  20  anos (1680-1700), posto  que, somente  em  10  de  Janeiro  de  1700  os  abnegados  e  virtuosos  padres Jesuítas  PHILIPE  BOUREL  e  JOÃO  GUINCEL  declaram  oficialmente  instalada  a  "MISSÃO  JESUÍTA  DA  ALDEIA  DO  LAGO  PODY". (Vide  livro "HISTÓRIA  DA  COMPANHIA  DE JESUS  NO  BRASIL" - Tomo V -  Autor:  Padre  Serafim  Leite).


Por Marcos Pinto - Historiador apodiense.



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